SÃO PAULO — O jornalista salvadorenho Carlos Dada afirma que o presidente Nayib Bukele controla os principais órgãos do Estado e passou a definir quem é tratado como criminoso. Dada deixou El Salvador depois que o El Faro, jornal do qual é um dos fundadores, investigou negociações entre o governo e gangues.
“Bukele deu um golpe na Corte Constitucional, controla os três Poderes do Estado, a Promotoria, a Polícia e o Exército”, disse Dada. Para ele, o presidente concentrou poder enquanto promovia um modelo de segurança baseado em prisões em massa e restrições a direitos.
Investigações e ameaças
O El Faro foi fundado em 1998, quando El Salvador ainda se reorganizava após a guerra civil encerrada em 1992. Segundo Dada, as gangues passaram a atuar como atores políticos na virada do milênio, entre 2001 e 2002.
O jornal investigou a estrutura das quadrilhas e as negociações com autoridades. Durante o governo de Mauricio Funes, entre 2009 e 2014, publicou informações sobre uma trégua entre o Estado e as gangues. Depois disso, recebeu ameaças do governo, de grupos criminosos e de organizações de narcotráfico.
Dada afirma que o El Faro identificou um pacto entre o governo Bukele e as gangues por meio de documentos oficiais, além de fotos, vídeos e entrevistas. O material registraria entradas e saídas de líderes criminosos de prisões e trocas de mensagens entre autoridades e integrantes desses grupos.
O jornalista também disse que as comunicações do jornal foram interceptadas pelo sistema Pegasus. A publicação de entrevistas com líderes de gangues detidos em El Salvador, mas livres em outros países, teria aumentado a pressão do governo e acelerado a saída do El Faro do país.
Prisões e regime de exceção
Dada afirma que o pacto entre Bukele e as gangues terminou em 2022. Depois disso, o governo ampliou as operações policiais e militares e adotou um regime de exceção que, pela Constituição, deveria durar 30 dias, mas já se aproxima do quinto ano.
Nesse período, a polícia passou a poder prender pessoas consideradas suspeitas sem ordem judicial ou apresentação de provas. Mais de 90 mil pessoas foram presas em quatro anos, o equivalente, segundo Dada, a uma a cada 50 pessoas. Ele afirma ainda que os detidos não têm acesso regular às famílias e aos advogados e são submetidos a julgamentos coletivos conduzidos por juízes anônimos.
O jornalista também relata que mais de 400 pessoas morreram sob tortura nas prisões. Para ele, o modelo de segurança depende da falta de acesso às informações públicas sobre homicídios e sobre o sistema penitenciário.
Dada citou o Centro de Confinamento do Terrorismo, conhecido como Cecot e criado em 2023, como símbolo da política de Bukele. Segundo o jornalista, o governo permite visitas à unidade, mas impede o acesso às outras 22 prisões do país, que tem 23 unidades no total.
Ele afirma que a divulgação do Cecot ajuda a formar uma imagem específica do sistema prisional salvadorenho. “Em El Salvador, Bukele decide quem é criminoso e quem não é”, declarou.







